Desde a assinatura do Alvará de 20 de abril de 1826,
assinado pela Infanta D. Isabel Maria (futura D. Maria II), que erigiu Câmara,
delimitou Termo e deu Juiz de Fora à Vila do Olhão da Restauração, que os
olhanenses lutavam pela sua total e concreta aplicação.
Em 1828, D. Miguel instala-se no trono português à frente
de uma monarquia tradicional e absoluta, com o poder concentrado na figura do
rei.

Ora, a 20 de abril desse ano, muito antes da própria
aclamação nas Cortes, os miguelistas olhanenses, farenses e tavirenses proclamaram
D. Miguel como Rei, numa sessão extraordinária da Câmara Municipal de Olhão.
O Juiz de Fora, Dr. António de Malafaia Freire Telles e
presidente da Câmara por inerência, saiu do cargo e da vila por divergências de
opinião.
A 20 de maio, a Câmara Municipal reúne extraordinariamente
sob a presidência de João Lopes, o vereador mais velho, e revoga a proclamação
de D. Miguel.
A 13 de Junho, toma posse o novo Juiz de Fora, o Dr.
António José de Morais, nomeado por ordem de D. Miguel.
Em setembro, os vereadores em exercício (João Lopes,
Domingos do Ó e Lourenço Lopes) e o Procurador do Povo ou do Concelho (Joaquim
Martins Paula) são afastados dos seus cargos sob a acusação de haverem assinado
a ata da reunião em que fora anulada a aclamação de D. Miguel, sendo que alguns
chegaram a ser presos.
No fim do ano é nomeado um novo Juiz de Fora, também por
ordem de D. Miguel: o Dr. António José Valentim, que toma posse em 13 de dezembro.
A renovação da Câmara, que então era anual, faz-se com
relativa normalidade, de harmonia com as regras estabelecidas pela política
dominante, mas não é feita providência alguma no sentido de dar a Olhão a plena
posse do Termo que lhe fora demarcado.
Sentindo-se abandonados pelo poder dominante, são
registadas várias manifestações contra as Vereações, e contra os miguelistas em
geral, que as apoiavam. Surgem assim as designações políticas de pedristas e
liberais, e os desentendimentos sobem de tom, culminando com numerosas
prisões de olhanenses, naturais ou residentes na vila.
As condições desses presos olhanenses nas cadeias
farenses são tão desumanas face às inexistentes culpas políticas que as
autoridades ponderam a sua libertação, mas perante a agressividade dos
miguelistas farenses, são enviados para Lisboa.
Encerrados no famigerado Forte de S. Julião da Barra, são
alvo de maus tratos e sofrem tantas vicissitudes que alguns chegam mesmo a
morrer lá, como Francisco de Soto-Mayor, comandante da Fortaleza de S.
Lourenço, o ferreiro Luiz Madeira e um tanoeiro de apelido Ruas.
A grande ironia da sua morte reside no facto de estar ligada em primeira mão ao desejo da autonomia e independência
administrativa da sua vila e não aos ideais das facções beligerantes.
No dia 26 de junho de 1833, as tropas do Duque da
Terceira entram em Olhão. E nesse mesmo dia é ali aclamada a Rainha D. Maria
II, em sessão extraordinária da Câmara Municipal, então presidida pelo Vereador
mais velho, Joaquim Viegas Esperança, substituto do Juiz de Fora de Olhão, Dr.
António José Valentim, que, entretanto, tinha fugido da vila.
No dia 30 de junho, num ofício dirigido à
Câmara Municipal de Olhão, o Duque de Palmela ordena, de Faro e em nome do
Regente Duque de Bragança, a posse do Dr. João Carlos de Oliveira Pimentel no
cargo de Juiz de Fora,e, consequentemente no de Presidente da Câmara Municipal.
Olhão torna-se, então, num dos poucos e sem dúvida num
dos mais fortes baluartes do liberalismo no Algarve.
No princípio de agosto, as tropas miguelistas
desencadeiam um violentíssimo ataque a Olhão, repelido vitoriosamente pelos
olhanenses nas trincheiras e barricadas levantadas nas entradas da
povoação, defendidas vigorosamente por todos os homens válidos, depois de
colocarem as mulheres, as crianças e os velhos a salvo, em barcos, no meio da
Ria Formosa.
As estratégias de defesa olhanense seguram e rejeitam novos ataques miguelistas em 17 e 21 de setembro, tendo este último sido comandado pelo próprio General Tomaz Cabreira, figura máxima dos miguelistas no Algarve.
Os mais violentos ataques miguelistas foram os
desencadeados contra o baluarte localizado onde hoje é o Largo da Liberdade,
porque era então ali a única possível entrada direta na vila a pé enxuto, e
em qualquer dia e a qualquer hora, já que por qualquer outro lado se teria
forçosamente de atravessar os sapais e esteiros da Ria Formosa que rodeavam a
povoação.
Muitos ataques se seguiram, não conseguindo os
miguelistas resultado favorável. O de 22 de fevereiro de 1834 foi
particularmente violento, registando-se as baixas dos olhanenses Manuel José
Patrício, Luiz Fernandes, Veríssimo Pereira de Mendonça e João da Silva Lopes.
Figuras Miguelistas das Lutas Liberais no Algarve
- Tomás António
da Guarda Cabreira Correia da Silva da Ponte e Alvelos Drago Valente de Faria
(Castro Marim, 20 de Outubro de 1792 – Faro, 21 de Novembro de 1834.
Foi marechal-de-campo
de D. Miguel I e responsável pela defesa do Algarve contra as tropas de D.
Pedro IV.
Estava em
Faro quando se dá a Convenção de Évora Monte, tendo aí sido preso e morto,
assassinado na cadeia, por defender a causa miguelista.
- José Joaquim de Sousa Reis – o “Remexido” – foi um guerrilheiro miguelista que espalhou o medo e a morte entre as populações algarvias.

Dos enormes prejuízos sofridos pela população olhanense
dei conta no texto “Olhão nas Lutas Liberais”.